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"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPA"- Zé do Bolo: a generosidade em pessoa

Atualizado: Mar 31

Autor: Cesar Tartaglia


Na madrugada de 12 de outubro de 2013, um incêndio devorou um imóvel modesto em Santa Cruz. Lá dentro, três crianças pareciam irremediavelmente condenadas a serem alcançadas pelas chamas. Ao ver a vida dos pequenos em risco, o vizinho José Carlos Severo dos Santos não pensou duas vezes: jogou-se no meio das labaredas e, ao custo de comprometer o próprio corpo com graves queimaduras, conseguiu salvar os meninos. Do heroísmo decorreu uma irremediável condenação: com feridas generalizadas, ele não resistiu e morreu no hospital após três dias de internação. A morte terrível de José Carlos teve um quê de simbolismo de sua personalidade: ele, que será sempre lembrado por colegas de trabalho, patrões, amigos e clientela do Carioca da Gema como o divertido Zé do Bolo, era daquelas pessoas raras que, humildes mas solidárias, tinha uma generosidade latente, própria daqueles seres humanos capazes de tirar o pouco que têm para doar a quem precise.

Essa é a imagem que ficou de Zé do Bolo, o eterno responsável pela limpeza do Carioca – a de um homem que não media esforços para ajudar, para agradar, para divertir em tempo integral. O garçom Alex coleciona na memória histórias impagáveis do colega:

– Ele recebia uma deferência especial de Thiago, que lhe liberava a cartela de consumo. Mas depois de um certo tempo de comedimento, começou a abusar nos gastos. Um dia Thiago o pegou pagando as despesas de três moças meio estranhas, daquelas de moral meio distraída... entende, né? Thiago ficou chateado e tirou-lhe a cartela liberada. Mas Zé não se abalava, e o bom humor estava sempre presente.

Outro que não se esquece das estripulias do Zé é o segurança Baby – talvez seu mais chegado amigo no Carioca da Gema. Ao falar dele, Baby não consegue evitar o marejar dos olhos. Colega de trabalho e vizinho de Santa Cruz, Baby se diverte, mesmo entre a tristeza das recordações, ao se lembrar de histórias do amigo. Como, por exemplo, a particularidade de Zé e os irmãos saírem para beber empurrando um carrinho de mão – esse mesmo, dos usados em obras pra transportar tijolos ou massa pronta. Eles iam bebendo até não aguentar mais. E, à medida em que caíam de tanto goró, eram colocados, um por um, por ordem de desmaio alcoólico, dentro do carrinho. O mais inteiro, ou o menos borracho, ao fim do périplo ficava encarregado de empurrar pra casa, carrinho lotado, os irmãos derrubados pelo excesso de álcool na veia. Ou esta, narrada pelo próprio Baby:

– Moro em Jardim Palmares. O Zé era meu vizinho e companheiro de copos no fim de semana. Lá, é tradição: quando morre alguém, a turma vai em peso ao enterro, menos pelo velório do que pelo objetivo principal de anotar o número da sepultura para jogar no bicho. Durante o cortejo do Kleber, nosso amigo, Zé ia com seu caderninho a postos, mas nada de o corpo chegar ao local do enterro. No caminho, impaciente, Zé observava aquele sem-fim de covas com a anotação “jazigo perpétuo”. E nada de números, nada de cova. Era jazigo perpétuo de cima a baixo. No meio do caminho, entre impaciente e curioso, Zé manda o comentário imortal: Baby, você percebeu como tem sepultura aqui de Jazigo Perpétuo? Tô olhando desde lá debaixo. Essa família era grande pra dedéu, né?

Zé, herói anônimo e inesquecível colega de trabalho da família do Carioca da Gema, morreu fazendo o que a sua natureza determinava – ajudando as pessoas.

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