• Carioca da Gema

"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPa"Depoimentos

Autor: Cesar Tartaglia



Moyseis Marques, desengomando o samba

Moyseis Marques é mineiro de Juiz de Fora, mas passa fácil, fácil por carioca da gema. Pudera: foi criado na indefectível Vila da Penha e, músico por excelência, banhou-se nas águas de um Rio de Janeiro abastecido culturalmente por nomes como Edu Krieger, Zé Paulo Becker, Alfredo Del-Penho, Zé Renato, Ana Costa, Luiz Carlos da Vila, João Calado, Luis Carlos Máximo e Moacyr Luz, entre outros. E outros mais da pura raiz do samba (Candeia, Aniceto, Paulinho da Viola, por aí) e da MPB em geral (Chico Buarque, a estrela mais brilhante do repertório abastecido por fonte da música brasileira). Quando começou a cantar no Carioca da Gema já havia sido mordido pela mosca do samba, mas sua carreira ainda era preferencialmente relacionada ao forró – tanto que Tiago o convidou pra fazer inicialmente as noites de pé-de-serra do meio do ano, então uma novidade na programação da casa. Moyseis ocupou seu espaço, tornou-se um dos grandes nomes da história do Carioca e hoje é um artista consagrado em todo o país, com um pé também na Califórnia, onde gravou o (excelente) disco “Casual solo”, que se junta a uma discografia nacional com três títulos (“Moyseis Marques”, “Fases do coração” e “Pra desengomar”). Fala Moyseis:

Quando eu fui pro Carioca da Gema, a casa já era uma referência no Rio. Era um lugar onde todo mundo queria tocar, cantar, se apresentar. Um lugar onde os melhores artistas do Rio se apresentavam. Uma casa que sempre colocou a música como prato principal – como é até hoje. Isso, inclusive, sempre foi verbalizado pelo Tiago. O Carioca era o objetivo da gente, era aonde queríamos chegar. Lembro que, quando eu ainda estava no Casuarina, tocar no Carioca era um sinal de status.

É curiosa a maneira como eu cheguei ao Carioca, uma casa de samba. Na verdade, cheguei lá através do forró. Parece piada, né? Mas era o que eu mais fazia profissionalmente. Eu faço forró até hoje, mas com o Carioca o samba entrou definitivamente na minha carreira. Fui chamado pra me apresentar às terças-feiras com o Xaxados e Perdidos. Lembro que o Rildo Hora apareceu e gostou muito. Já era o Paulinho Figueiredo produzindo a parte musical da casa. Ele gostou muito de mim, da minha voz. E começou a me chamar pra fazer algumas substituições. Minhas noites de forró pé-de-serra eram sazonais. Só aconteciam no meio do ano, durante a época das festas juninas. O Carioca, firme, continuava como uma casa de samba, mas foi cantando forró ali que eles ficaram conhecendo meu trabalho.

Essas substituições aconteciam na happy hour que antecedia a Teresa Cristina, uma fórmula voz-e-violão então feita por Ana Costa, com o Oswaldo Cavalo, e na outros artistas que eventualmente não podiam fazer suas apresentações. Lembro que substituí o Pedro Paulo Malta, o Choro na Feira cantando com Áurea Martins, fiz apresentações com o Dobrando a Esquina. Lembro que cheguei a substituir a própria Teresa – mas nesse caso, como era sexta-feira, um dia muito nobre, eu fazia sempre na companhia de alguém mais conhecido (risos), ora Luiza Dionizio, ora Ana Costa. Isso era 2003, 2004.

Aí eu já estava me voltando quase totalmente pro samba – quer dizer, preferencialmente pro samba. Já tinha tido a experiência com o Casuarina e já fazia minhas rodas de samba por aí. O Carioca da Gema se tornou uma referência, porque ficou reconhecida como uma casa de samba mesmo. Tinha o pessoal que tocava com o Zeca Pagodinho, os grandes artistas de samba estavam todos lá, Dona Ivone Lara, Mauro Diniz, Monarco...

O Paulinho Figueiredo me chamou para a primeira formação do Tempero Carioca. Então passei a ter um dia fixo na casa, cantando às quartas-feiras com o Marquinho China e a rapaziada do Tempero. Mas continuava como um curinga, fazendo substituições. Depois me deram quinzenalmente o sábado na casa. Eu revezava com a Luiza Dionizio. Então, pedi pra trazer pras minhas apresentações uma galera que já tocava comigo, que eu havia conhecido através do Zé da Velha e do Silvério Pontes – eram o Alessandro, Charles, Netinho... O pessoal que hoje em dia forma o Joia Rara.

O Joia Rara ainda não tinha este nome. O nome só veio depois de 2009, por causa da música “Pretinha, joia rara”, que estourou na trilha sonora da novela “Caminho das Índias”. Foi ali que eu comecei a consolidar meu espaço, com minha galera tocando comigo. Com o tempo, saí do Tempero Carioca e comecei a querer fazer um dia meu também. A coisa mais importante pra mim, que posso retratar do Carioca, foi a liberdade que fui conquistando de fazer o que eu queria. Tocar com meus músicos, tocar com a mesma banda, e tocar as minhas canções, meu repertório. Ali comecei minha trajetória de compositor, um grande laboratório pra mim.

Quando saí do Tempero, saí do sábado também. Então comecei a fazer as quintas-feiras. E foi só alegria, porque as quintas começaram a lotar. Depois me deram o sábado de novo, e eventualmente pegava também algumas sextas, porque a Teresa, a essa altura, já não estava mais fazendo a agenda de antes. O trabalho ficou bem azeitado, bem encaixado. Era a oportunidade de fazer um grande trabalho, numa grande casa e para um grande público. Aquilo me projetou pro mundo, porque o Carioca, naquela altura, recebia muito gringo, muita gente de fora, muito contratante. Comecei a viajar pra caramba. As pessoas me conheciam, vinham de outros estados e iam lá me ouvir. O Carioca foi uma grande universidade pra mim”.

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