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"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPa"capitulo 6

Atualizado: Mar 31

Autor: Cesar Tartaglia



O bloco e o baile a fantasia

Nas duas últimas décadas do século passado, o carnaval de rua no Rio estava virtualmente acabado. Expressão das mais autênticas manifestações da cultura popular do país, a folia carioca foi perdendo espaço em razão de fatores que, hoje se constata, tinham a ver com uma conjuntura terrivelmente marcada pelos anos de opressão política e sistemática crise econômica legadas ao Brasil pelos vinte e um anos de ditadura militar. A liberdade do chamado tríduo momesco não cabia na opressiva ordem do dia dos governos militares. Mesmo após a retomada da normalidade democrática, os primeiros anos de democracia ainda eram vistos com desconfiança por uma nação que despertava de um pesadelo.

Por outro lado, o formato que se adotou no desfile das escolas de samba também contribuiu pra transformar o carnaval de então num gueto. Elevado à condição de atração cada vez mais internacionalizada, o concurso – que não por acaso passou a ser marcado por um distanciamento de sua alma musical, o samba mais autêntico, tradicionalmente a alma das agremiações – monopolizou por muito anos o interesse da sociedade e da mídia. Então, os três dias destinados à folia – que hoje são muitos mais – se resumiam aos dois dias de festa na avenida. A rua, a manifestação autêntica, a alegria democrática, a sátira ficaram confinadas a bairros do subúrbio.

Na virada do milênio, deu-se o fenômeno do renascimento do carnaval de rua carioca. Não por acaso, a boêmia Lapa, a Lapa de tantos carnavais, dos malandros e mulatas, a Lapa cantada em sambas-enredos, a acolhedora e democrática Lapa esteve no epicentro dessa ressurreição. Juntando a redescoberta da folia de rua ao fenômeno de sua própria revitalização, o bairro foi crucial para dar impulso à retomada da mais antiga e mais autêntica manifestação cultural urbana do país. Disso decorreu o seguinte: por sua identidade com o samba e sua importância no renascimento da Lapa, o Carioca da Gema se viu, por natural, integrado a esse movimento em razão de opção identitária e com ações concretas. A identificação estava implícita na gênese da casa e nas relações cada vez mais estreitas do seu trio comandante com o samba. Ligar essa convivência ao renascer do carnaval era mais que previsível – era imperativo. Quanto às ações, uma delas ocorreu como fenômeno natural: a criação do Bloco Carioca da Gema.

A agremiação foi criada em 2007, com Paulão Sete Cordas encarregado de lhe dar forma musical. De imediato o músico montou uma equipe que, de tão afinada, se transformaria numa espécie de cozinha musical permanente. Com poucas modificações, o naipe de sopros e percussão tem se mantido com a responsabilidade de embalar o desfile. Ao longo dos anos, o bloco tem homenageado em suas apresentações personagens e manifestações emblemáticas da dobradinha samba/carnaval, do Rio e mesmo do Brasil. Foram eles, até 2020, os temas dos desfiles do bloco:

2020- Perfeito fortuna

2019- O Rio ama a Lapa

2018- 18 anos de resistência do samba na Lapa

2017- Mestre Trambique

2016- 100 anos Pelo Telefone

2015- Socios e músicos da casa

2014- Icones da Cidade

2013- Ano 7 Carioca da Gema- Oscar Niemeyer

2012- 100 anos de Mario Lago

2011- Nelson Cavaquinho

2010- Noel Rosa

bloco em julho Homenagem aos 10 anos de Carioca da Gema

2009- Luis Carlos da Vila

2008- Carioca da Gema

2007- Arcos da Lapa

A concepção do Bloco Carioca da Gema é distinta dos grandes blocos de embalo do Centro. Seu desfile faz um percurso curto – concentração em frente à casa que lhe empresta o nome, que fica aberta à visitação dos foliões, um esquenta no Palco Luiz Carlos da Vila e o desfile propriamente dito até a Fundição Progresso, parceira por afinidade da casa e da agremiação. Ali, o bloco estaciona, e a Fundição fica franqueada aos foliões com a camiseta do ano.

A formação do bloco deu-se paralelamente a outra bem sucedida contribuição do Carioca da Gema à folia carioca: o baile a fantasia realizado às terças-feiras da semana em que se abre oficialmente o carnaval do Rio. O evento tem o formato tal e qual o dos tradicionais bailes de salão, com orquestra – formada por músicos que fazem parte do cardápio musical da casa – no Palco Luiz Carlos da Vila, marchinhas e concurso de fantasias. A coisa é pra valer, afirma o gerente João Luiz Soares:

– Meu primeiro carnaval como gerente do Carioca da Gema foi uma noite inesquecível pra mim. Até então, eu não tinha muito conhecimento do que era a Lapa. Na verdade, sequer gostava de samba. Na noite do baile, eu tinha acabado de assumir a gerência e fiquei impressionado como as pessoas se entregavam, como se integravam na proposta do evento. Todo mundo fantasiado, a maneira como todos demonstravam um amor pelo samba e a felicidade de estar brincando o carnaval. Fiquei impressionado, e até hoje eu me emociono quando a casa começa a encher de foliões na terça-feira que já se tornou uma espécie de abre-alas do carnaval da Lapa.

Formado em RH, João Luiz fez carreira profissional em Boston., Foi para lá em 1999 com a cara, a coragem e US$ 3.800 no bolso. Ele estava no primeiro casamento. Vendeu tudo o que podia e, no dia 15 de junho, se mandou rumo ao desconhecido nos Estados Unidos. Foi gráfico, passou para o ramo de restaurantes, aprendeu o que devia e, de volta ao Brasil, veio reforçar o time do Carioca da Gema. Saltar de uma realidade no mercado de trabalho distinta da que se pratica no Brasil, e justamente numa das noites mais movimentadas do Rio, explica apenas em parte o deslumbramento de João Luiz com a casa que lhe abria as portas. A proposta do Bloco e do baile de carnaval tem um alvo generalizado, sejam convidados neófitos ou clientes já temperados na folia – resgatar o lúdico de uma manifestação cultural que, de aparentemente condenada a desaparecer, renasceu com uma energia contagiante em todo o Rio. Partícipe desse fenômeno desde as primeiras e tímidas iniciativas, na Lapa, visando a recriar a tradição do carnaval carioca, o trio de empresários Thiago, Marianna e Carol pode se orgulhar de ter inscrito a casa na crônica da rediviva folia de rua da cidade.

– O bloco e o baile são indissociáveis. E os dois contribuem, sem modéstia alguma, para manter viva a retomada da tradição do carnaval popular da Lapa e o Rio – orgulha-se Thiago.

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