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"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPa"capitulo 5

Autor: Cesar Tartaglia


A filosofia de aliar a presença em seu palco de nomes consagrados do samba à de artistas em busca de consolidar seu trabalho, marca de uma opção na programação do Carioca da Gema desde a hora zero de sua trajetória, se manteve firme ao longo de todo o período em que Lefê Almeida esteve à frente da produção musical. E não se alterou – antes, talvez tenha se reforçado – quando, em fevereiro de 2004, o produtor Paulo Cesar Figueiredo o substituiu.

Afinado musicalmente com os três sócios, e pessoalmente dono de uma cultura e uma vivência musicais de refinado gosto, Lefê foi ajeitando o cast do Carioca até encontrar o caminho que consolidou a casa como experiência bem sucedida de união entre mesa e música. A preferência musical deu certo, mas chegou a um ponto em que o ambiente musical da Lapa parecia querer algo mais, ir mais à frente, talvez cobrando mais ousadia para além dos limites – ainda que bem sucedidos – do gosto musical de Lefê. Convidado para substituí-lo, Paulinho Figueiredo analisou a convocação com muita prudência, um misto de pé-atrás e incerteza quanto a encarar um novo desafio na noite. Ele estava saindo do Dama da Noite, onde produzira a ciranda musical por dois anos, uma empreitada que já lhe custara algumas noite sem dormir antes de lhe dar o sim:

– Eu já não estava mais disposto a fazer a noite. Mas aí a Márcia (D. Antonio, dona do Dama da Noite) insistiu e tal, e topei o convite. Lá eu comecei a desenvolver um perfil musical que era o de trazer para a Lapa sambistas com os quais eu já havia trabalhado em produções para gravadoras e shows. Eu trouxe esse perfil para o Carioca da Gema e deu certo.

De fato, da troca de Lefê por Paulinho decorreu, se não de imediato, mas ao longo dos meses seguintes, uma mudança na opção preferencial por uma distinta escola do samba. Foi uma mudança sutil no início, porque Paulinho viu que não havia muito o que mudar, a curto prazo, na orientação dada até então por Lefê.

– Eu conhecia bem o Lefê, e já havia estado diversas vezes, como cliente, no Carioca. Antes de aceitar o convite do Thiago fiz questão de vir conversar com ele, Lefê. Era seu último dia na casa, eu ainda não havia dado resposta ao convite para substituí-lo, pois queria saber antes se estava tudo bem. E me lembro que lhe falei sobre a dificuldade de entrar no seu lugar, pois o Carioca tinha a sua cara, a sua alma musical. Lefê me deixou bem à vontade. Eu entrei e fui mantendo o que ele já deixara estruturado, mas tentando ao poucos ir mudando até deixar a produção e a grade da casa dentro do que eu imaginava – conta Paulinho.

A mudança mais visível deu-se na maneira como cada um via o samba. Lefê era mais ligado nas cordas, uma opção que ficou muito clara nos nomes que ele chamou para essa primeira fase do Carioca. “Ele produzia um samba de excelente qualidade, mas que enfrentava alguma dificuldade no circuito comercial. Era muito bom de ouvir, mas ainda objeto de alguma resistência no circuito comercial”, lembra Paulinho. O novo produtor mesclou essa excelência – Cartola, Nelson Cavaquinho, os clássicos – com uma pegada mais de samba de roda, Cacique de Ramos, Luiz Carlos da Vila etc:

– Fiz vários eventos com a essência do Lefê, mas não deixando de trazer artistas mais contemporâneos. Daí que veio, por exemplo, a ideia de montar o Tempero Carioca. Todo mundo já se conhecia e fui chamando os integrantes. E também procurei trazer artistas que quase não se apresentavam no Rio, por falta de espaço. Trouxe o Jorge Aragão como convidado. Luiz Carlos ficou por muito tempo aqui. Monarco vinha direto. Fiz uma grande temporada com Moacyr Luz. Mantive a Áurea Martins, uma deusa, a Nilze Carvalho com o Choro na Feira.

Aos poucos, o Carioca da Gema foi ganhando o perfil de uma casa de samba tradicional, de raiz – um modelo que influenciou as casas noturnas do entorno e se tornou paradigma para o chamado samba da Lapa. Não foi um movimento pensado como tal, mas a demanda da conjuntura musical da época acabou por moldar-lhe as características de um caminho que ficou conhecido em todo o Brasil. A sonoridade que Paulinho introduziu no Carioca era uma novidade na cena musical do Rio pescada na tradição. Por sua trajetória no mundo do samba, tal diretriz não chegou a ser uma surpresa. Ele nasceu e viveu infância e juventude embalado pelo mais genuíno ritmo da música produzida no subúrbio do Rio. Nascido na seminal Madureira, foi criado em Del Castilho e teve como colega de turma na escola o emblemático Zeca Pagodinho. O curioso é que, a despeito desses eflúvios de berço e infância, Paulinho optou, na pós-adolescência, por tentar caminhos distintos das rodas. Fez Fotografia e Jornalismo, mas em 1986 o samba o pegou numa curva da trajetória profissional.

– Comecei a fazer produção musical com o Cravo na Lapela, um grupo de samba tradicional que tinha o Marquinho China, Negão da Abolição... Eles se apresentavam ali no Cachambi, e foram uma escola pra mim – conta Paulinho.

Uma escola que o gabaritou para, em seguida, fazer a produção da Velha Guarda da Portela, empreitada que topou por nada menos que vinte anos. Produziu discos de Dona Ivone Lara – dois deles, inclusive, lançados na Europa. E tornou-se uma referência no samba carioca, a ponto de conhecer literalmente qualquer músico, compositor, cantor que esteja, ou já tenha estado, no mercado, nas rodas, nos terreiros e nas escolas de samba. No posto de produtor do Carioca, Paulinho também criou o concurso de novos talentos (Novos Bambas do Velho Samba), que entre 2006 e 2014 revelou inúmeros artistas, muitos dos quais com a carreira já consolidada no showbiz do país. Paulo Figueiredo permaneceu como produtor fixo do Carioca da Gema de 2004 a 2008. Depois, passou a desenvolver apenas projetos especiais para a casa, da qual jamais se desligou de fato.

– O projeto dos novos talentos surgiu em razão de uma demanda criada pelo grande sucesso do Carioca. Vários artistas, muitos ainda em início de carreira, portanto sem encontrar espaços onde pudessem se apresentar, queriam cantar aqui. Mas era um troço difícil de encaixar, porque a grade vivia fechada com atrações muito bem-sucedidas. Foi para não perder a chance de pegar essa nova safra, na qual havia não poucos nomes com muito talento, que criamos o concurso. Foi um projeto de repercussão nacional, como provam as inúmeras inscrições de jovens de diversos estados, não apenas do Rio de Janeiro. Hoje está difícil retomar o projeto porque isso envolve custos e há uma retração das empresas investidoras. Mas o resultado obtido foi ótimo, deu uma dinâmica à casa e abrimos espaço pra muita gente nova com talento. O concurso foi uma grande vitrine – considera Paulinho.

Ele também teve participação decisiva na formatação do Bloco do Carioca da Gema, uma derivação previsível da relação da casa com o carnaval do Rio. Paulinho, que ajudou a montar a logística dos primeiros desfiles, esteve à frente do negócio nos três primeiros anos da agremiação. Dessa posição privilegiada, ele testemunhou as dificuldades de encarar uma empreitada com tal dimensão. Mas sua movimentação junto aos músicos, arregimentando-os, foi decisiva para transformar a ideia numa iniciativa de sucesso.

– O Carioca da Gema tem uma particularidade. Embora seja um empreendimento comercial, tem uma parte institucional que precisa ser ressaltada. A alma da casa, seu espírito, é essa coisa da família. Não só no relacionamento entre eles, Thiago, Marianna e Carol, mas na maneira como eles conduzem a relação com os músicos e como veem a música. É uma preocupação que se estende também à comida, ao preparo dos garçons, que participam ativamente dos eventos da casa. Então tem uma coisa que contagia, por esse espírito, as pessoas que vêm ao Carioca. A par de ser comercial, trata-se de uma casa, como outras do gênero, que tem importância na preservação e no desenvolvimento cultural da cidade. Espaços como esses mereciam ter um incentivo especial do poder público. A prefeitura perde espaços de cultura muito grandes ao não dar esse incentivo. Para fazer o tratamento acústico do salão, por exemplo, eles tiveram de tirar o dinheiro integralmente da renda deles, quando o Município poderia ter dado subsídios, envolvendo empresas... Não seria nada de graça, mas uma mobilização do poder público para fortalecer esse tipo de empreendimento de modo que os incentivos revertessem em benefícios culturais e fiscais para a cidade. Mas, pior: em vez de incentivar, nos últimos anos o poder público tem procurado dificultar as coisas – afirma Paulinho.

Por certo, o incentivo do poder público poderia resultar, por exemplo, em projetos para a cidade e os cidadãos. O Carioca, que teve papel crucial na ocupação do solo que reverteu em benefícios para a revitalização da Lapa, amealha uma história que vai além de sua razão social. O estabelecimento foi pioneiro, mas como ele, outras casas noturnas também vêm contribuindo para cimentar de vez a imagem de região degradada que por muito tempo ficou colada ao bairro que as abriga.

– A oportunidade de recuperar casarões, dar segurança a quem mora na região, ou mesmo a quem apenas a frequenta, são benefícios presentes, mas que acabam passando se os esforços não são valorizados. O que esse movimento espontâneo de revitalização da Lapa deu de dividendos culturais à cidade é fantástico. Antes, por exemplo, a classe média era muito ligada ao rock e outras manifestações. Pouca gente conhecia Cartola. Hoje é comum um guri, em vez de pedir uma guitarra ao pai, pedir que ele lhe compre um pandeiro, e ir pra roda de samba. Mas se isso não for preservado acaba se perdendo. O poder público tem obrigação de enxergar isso – reivindica Paulinho.

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