• Carioca da Gema

"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPa"capitulo 4

Autor: Cesar Tartaglia



Para comemorar um ano de funcionamento da casa, Thiago, Carol e Marianna criaram o Prêmio Carioca da Gema, uma distinção para ser entregue a personalidades da música brasileira – em especial, por óbvio, do samba. O troféu era um prato de louça pintado por Cecília Cesário Alvim, prima de Carol e Thiago, dona do Oriba, um bem sucedido ateliê em Araras. As apresentações marcadas para festejar a primeira premiação ocuparam toda uma semana, cada dia com um convidado diferente – culminando com a cerimônia de premiação do primeiro ganhador da distinção. A partir daí, o prêmio passou a ser conferido mensalmente e, depois, sempre que o Carioca resolvesse fazê-lo.

A noite dedicada ao primeiro homenageado foi histórica: o grupo Dobrando a Esquina, que se apresentava às quartas-feiras, recebeu como convidado, para receber seu prêmio, o violonista César Faria, célebre integrante do grupo Época de Ouro e não menos célebre pai do sambista Paulinho da Viola. A visita de César ao palco foi o mote para que ele se fizesse acompanhar pela óbvia presença de todos os demais integrantes do grupo. E, ainda que igualmente óbvia mas até pouco antes da abertura da casa uma incógnita, também a ida de Paulinho para conferir a noite em homenagem ao pai causou muita expectativa.

Paulinho não só foi à festa como, chamado ao palco, transformou a noite em data épica. Cantando ao lado do pai, ambos acompanhados pelo Época de Ouro, o sambista portelense brindou o público com uma apresentação emocionante. Carol, sentada na escadaria de acesso ao segundo piso, acompanhava o show literalmente arrepiada. Ao seu lado, ela percebeu, um cliente anônimo não escondia o que parecia ser a síntese do sentimento que dominava o público: descontrolado de emoção, agradecido por estar testemunhando um momento histórico da música brasileira, ele chorava, chorava, chorava... Olhava para o palco, incrédulo, baixava a cabeça e chorava. Japonês, o cliente tentava comunicar seu sentimento a quem estava ao seu lado, num português arranhado, e chorava.

– Eu estava na escada e assisti ao pranto do japonês, um pranto de pura alegria, de quem não conseguia explicar o que estava sentindo. Depois ele me contou, do jeito que pôde, que não acreditava que estava ali, a pouco metros de Paulinho da Viola, vendo o sambista, seu ídolo, cantar e tocar ao vivo. E ainda mais naquela circunstância de ser um show em que seu pai era homenageado. O japonês era um grande fã de Paulinho, tinha todos os seus discos, mesmo os que não haviam sido lançados no Japão – conta Carol.

A noite épica há de ter ficado para todo o sempre marcada nos corações e mentes do público, mas não foi a única na história da casa. Registrado apenas no âmbito da entrega do Prêmio Carioca da Gema, a quem lhes foi conferida a distinção, contabiliza-se às pencas o número de personalidades que, ao receberem o troféu, promoveram encontros memoráveis no futuro Palco Luiz Carlos da Vila. Lá estiveram também, para além dos homenageados, artistas e lendas vivas da cultura e história do Rio, como Carmen Costa, Paulo Cesar Pinheiro, Moacyr Luz, Nei Lopes, o grande artista plástico Mello Menezes, Aldir Blanc e o célebre Ceceu Rico, seu pai e inesquecível personagem da galeria criada pelo poeta da Tijuca para suas crônicas e reminiscências de um Rio terno, solidário e bem-humorado. Some-se Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara, Tantinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, velhas guardas das escolas, Jorge Aragão, Monarco (durante um bom tempo presença constante na casa) – em resumo, o essencial do samba. O maior lateral-esquerdo do futebol mundial, Nilton Santos também foi homenageado e ganhou seu prato de cerâmica. O lendário lateral do Botafogo, aliás, tornou-se um emblema da ligação da casa – movida por inabalável amor do torcedor Thiago – com o alvinegro. O próprio Luiz Carlos da Vila (por sinal outro botafoguense), homenageado, para além do prêmio, não só com o batismo do palco da casa, mas igualmente com a instalação de um painel de fotos na parede ao fundo da mesa normalmente reservada para os músicos, à esquerda de quem sobe ao tablado, foi protagonista de inúmeras noites a serem lembradas como únicas na crônica do Carioca. Depois de receber seu troféu, Luiz Carlos passou a ser convidado de honra do Carioca. Dali virou assíduo frequentador e, depois, artista da casa. Foi simplesmente memorável a roda de samba que ele protagonizou no Carioca a partir de maio de 2008.

O curioso é que, até começar a frequentar o Carioca da Gema, ele não fazia parte do grande círculo de amigos e conhecidos de Thiago, Carol e Marianna. Mas acabou se tornando um amigo de infância do trio.

– Eu me lembro que uma das primeiras vezes em que ele esteve no Carioca foi pra dar uma canja. Não o conhecia pessoalmente. Nessa noite, eu estava na escada de acesso ao jirau e, quando ele subiu ao palco e começou a cantar, me assustei. “Quem é esse ser humano?”, me perguntei. Fiquei encantada de cara, uma coisa impressionante. Sua maneira de cantar, os sambas dele. Fiquei apaixonada – conta Marianna.

Não havia semana em que, pelo menos uma ou duas noites, Luiz Carlos deixasse de dar ao menos uma passada para conferir a presença de amigos, os shows e se divertir acompanhado de seu indefectível uísque – invariavelmente um copo longo de Chivas. Jane, sua mulher, também ficou freguesa. Eles chegavam, os donos lhes faziam as honras e decretavam: a casa é sua. Visivelmente, Luiz Carlos sentia que de fato o Carioca era seu ponto, seu refúgio, seu canto na Lapa.

– Às vezes, ele entrava só pra tomar um uísque e saía. Mas estava sempre batendo ponto – recorda-se Thiago, com ternura.

Para além de uma dívida de gratidão, as lembranças físicas de Luiz Carlos da Vila no Carioca da Gema são a celebração de uma grande amizade que o uniu a Thiago, Carol e Marianna. São também o reconhecimento da dimensão do compositor como artista e ser humano. Do primeiro, fala por si só a imensa, qualitativa e quantitativamente, obra que ele deixou como legado para a cultura brasileira – em especial para o resgate da identidade dos movimentos de resistência da cultura popular, como o samba e todas as formas de expressão/vivência personificadas nas heranças dos ancestrais africanos. Do segundo, é testemunha a inesgotável galeria de amigos que ele fez ao longo da vida. Não por acaso, as fotos reunidas no painel inaugurado junto ao palco do Carioca da Gema em sua homenagem, na emblemática noite de 20 de novembro de 2009, Dia de Zumbi dos Palmares, o retratam em diferentes situações, cercado pelo carinho de amigos, fãs e admiradores em geral. Por sua vez, o batismo do palco com o seu nome deu-se no show Feliz Natal, em 3 de dezembro de 2013. Com o Tempero Carioca recebendo Moyseis Marques, seu ex-integrante de primeira hora e já então trilhando uma brilhante carreira solo de cantor, e outros bambas, o público assistiu, emocionado, a uma simultânea deferência às faces de artista e de ser humano do poeta das vilas. O nome do show foi inspirado na expressão que o compositor costumava usar, por pura gaiatice, quando encontrava um amigo ou quando se despedia de alguém – e isso em qualquer época do ano, não necessariamente por ocasião das festas de fim de ano. Nesse dia, em si uma jornada recheada de boas recordações, o poeta ganhou do sambista Serginho Procópio, prócer da Velha Guarda da Portela e companheiro de armas em defesa da cultura brasileira, um lindo samba, um réquiem portelense que levou às lágrimas a viúva de Luiz Carlos, Jane.

No azul do céu brilhou um arco-íris

Lembrei teu sorriso sobre o mar

Notei que no amor então não há limites

É um verde esperança

que se espalha no ar, no ar, no ar

Quando um vazio vem e nos domina

e a saudade bate pra nos torturar

Mais, é muito mais

Que o calor de uma fogueira

Chama que não se apagar

Nem se apagará

Luiz a tua luz

Sempre estará acesa

Pra que a nossa vida

Sempre possa alegrar

De um vulgar fez um rei

Na canção que cantei

E do nada um império pra nos dar (bis)

Seu amor sua lei

Poesia a lembrar

Que um poeta não morre, sempre viverá

(“Samba pra Luiz”, Serginho Procópio)

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