• Carioca da Gema

"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPA"Capitulo 3

Autor: Cesar Tartaglia

A doce missão de encontrar a razão social para batizar a casa deu-se em reuniões do núcleo que preparava a inauguração. Convergiu-se para o nome Carioca da Gema quando, à pergunta, aparentemente retórica, de um deles (“O que a gente se considera?”), seguiu-se de imediato a: somos cariocas da gema. Lefê observou que esse era o nome do belo samba de Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte. A expressão só é citada explicitamente no título da música, mas seus versos reforçavam o espírito da coisa:

Sou carioca

tenho muitos anos de janela(...).

Curiosamente, depois de inaugurada a casa outro samba, com título homônimo, poderia ser evocado como convalidação da opção pelo nome de batismo:

Todos os sabem que eu sou,

sou carioca da gema.

Sonhador de pé no chão,

minha cidade é um poema.

Todos sabem que eu sou,

sou carioca da gema (meu povo).

Eu sou carioca da gema do ovo (de novo).

Eu sou carioca da gema do ovo.

É bem carioca pendurar a conta lá pro fim do mês

E ainda por cima ser considerado como um bom freguês

Que paga promessa, que bate tambor

Que sobe na Penha e no Redentor

Que toca tantã, tira onda

e grita no Maracanã (gol!)

(“Carioca da gema”, do trio Arlindo Cruz, Franco e Sombrinha)

Mas a reprodução da letra da obra de Paulinho Pinheiro/Mauro Duarte na parede do fundo do Palco Luiz Carlos da Vila lá permanece como indelével lembrança de quais foram os versos que inspiraram os sócios ao batizar o empreendimento.

Ao decidirem montar o Carioca da Gema, Thiago, Marianna e Carol ainda estavam em busca de uma identidade no showbiz. Eles sabiam o que queriam, tinham delineado o que almejavam mas ainda lhes faltava o desenho final do que estavam por montar. Desde os tempos da casa de festas no Recreio, o trio buscava lapidar a ideia de ter um empreendimento que fosse a cara do grupo. Mas o que era a cara de um grupo que apenas a delineara, no Recreio e em suas derivações comerciais na Lapa “antediluviana” da época do Emporium 100, ou de Santa Teresa, ou ainda da incursão na seara dos lanches universitários? O perfil do que eles queriam começou a se moldar com um pouco mais de foco com a experiência no antiquário. O caminho rumo ao Carioca não era necessariamente um determinismo, mas por certo era algo que eles amadureciam a cada nova investida. O bar na Mem de Sá não consolidou essa certeza no exato momento em que fecharam o contrato para ocupar o imóvel, mas a prova de fogo da inauguração, com todo o estrondoso sucesso daquela noite memorável, cumpriu essa missão.

– Queríamos algo com que nos identificássemos plenamente, um bar que fosse confortável, que tivesse boa comida, uma boa música. Chegamos a pensar em outros nomes, mas o Carioca da Gema foi um achado. E quando as coisas começaram a dar certo logo de cara, nos demos conta de que enfim tínhamos chegado ao que estávamos buscando – lembra Marianna.

Por sua vez, Carol observaria, mesmo quinze anos depois de inaugurado o Carioca da Gema, que as experiências anteriores foram importantes na consolidação da ideia do bar na Lapa, mas que o caminho – até por inexperiência dos três – foi meio errático: “Faltava foco. Ao mesmo tempo, foi bom errar para aprender – diz Carolina, que comanda, ao lado de Marianna, as finanças e a ambientação da casa, enquanto Thiago cuida da operação e dos assuntos jurídicos. – Eu e Marianna também saímos à procura de cursos de gestão e gastronomia para termos formação na área”. (“Trio que comanda Carioca da Gema conta como foi apostar alto na revitalização da Lapa”, por Renan França – O Globo de 7 de junho de 2015)

O bar abriu as portas com um menu inspirado no cardápio que dona Ely criara para o Coisa Antiga. Quem ajudou a dar forma e sabor às receitas da mãe de Marianna foi a cozinheira Marlene Barbosa, que ficou à frente das panelas do Carioca até abril de 2017, quando se aposentou. Os pratos tinham nomes de artistas. Mais tarde, o jornalista Nick Zarvos – parceiro de Lefê em outros empreendimentos e, assim como o primeiro produtor musical da casa, igualmente muito ligado ao renascimento do carnaval de rua, via Barbas, Simpatia é Quase Amor e outros blocos, a par de ser amigo do trio de proprietários – deu forma à bossa de descrever os pratos. A colaboração de amigos e, também, do corpo de funcionários foi vital para botar o empreendimento nos eixos. O amigo Paulo Camarão, por exemplo, criou a logomarca da casa. O imóvel, espaçoso, daria condições ao grupo de ampliar a área útil destinada ao público, mas esse foi um passo que só veio em seguida. No segundo andar, com a preciosa colaboração, entre outros, de Zulu, iconográfico garçom da primeira década de existência do Carioca, Marianna e Carol dedicavam-se a estofar poltronas e recuperar móveis comprados a preços mais em conta em antiquários e depósitos.

– Começamos a funcionar somente com o espaço do piso. O sucesso da inauguração e dos primeiros tempos de funcionamento nos indicou que tínhamos potencial, e, o mais importante, área para crescer. Ganhamos lá em cima mais trinta lugares, para uma espécie de lounge. Botamos mesas, cadeiras, depois construímos um pequeno bar, e o balcão – conta Marianna.

Externamente, também foi importante a colaboração de empreendedores e da variada galeria de tipos abrigados na Lapa. Thiago se lembra de ter recebido preciosos conselhos de Ayres Figueiredo, dono do Nova Capela, o centenário e emblemático restaurante (herdado por seu primogênito, Ayres Filho), ponto de encontro, de passagem e de todo tipo de experiências humanas, encravado na Mem de Sá:

– O Capela foi um parceiro de primeira hora. O saudoso seu Ayres me ensinou muito, me mostrou como receber as pessoas ainda na calçada, a conversar com a clientela. É o que eu gosto de fazer. Pra mim, dar atenção aos clientes é algo muito prazeroso. Seu Ayres sempre me falava: “Ô, garotão, você é o único cara que trabalha direito aqui na área”. Eu achava aquilo fantástico, adorava. Inclusive a maior parte das nossas grandes decisões foi tomada no Capela. A gente almoçava ali pra discutir nossos passos, comendo aquele arroz de lula com salada de batata... Eram uma delícia os almoços no Capela pra decidir a vida do Carioca da Gema.

Ele também se recorda, com carinho, que sempre manteve um bom relacionamento com Luana Muniz, lendária travesti que ajudou a fundar o projeto Damas da Prefeitura, responsável por capacitar travestis e transexuais para o mercado de trabalho. Luana, que morreu em maio de 2017, aos 59 anos, também presidiu a Associação dos Profissionais do Sexo do Gênero Travesti, Transexuais e Transformistas do Rio de Janeiro. Ela era uma espécie de xerife da região, com indiscutível ascendência sobre os travestis que ali faziam ponto. O imóvel do Carioca está plantado bem em frente onde funcionava um desses pontos, e havia certa apreensão do trio em relação a possíveis – felizmente não confirmados – conflitos com Luana e seus protegidos. Mas, salvo por um pequeno incidente provocado por um taxista da área, essa foi uma demanda muito bem resolvida, segundo Thiago:

– O taxista era um fofoqueiro que tentou nos indispor com a Luana. Ele lhe teria dito que eu havia falado umas coisas contra ela. Luana gostava da gente, mas veio tirar satisfação. Desfizemos o mal-entendido e ficamos na boa. O problema se originou a partir de uma briga, na qual um sujeito, que vivia encrencando com as travestis, levou delas uma surra homérica. O cara correu pro portão do Carioca, nós o deixamos entrar no prédio e evitamos que fosse linchado. A Luana não gostou disso e, envenenada pelo tal motorista fofoqueiro, veio falar comigo. Eu lhe fiz ver o desastre que seria ter um morto numa área que lutava pra se recuperar da má-fama de antigamente. No dia seguinte, isso estaria nos jornais e seria péssimo para todo mundo. O incidente com Luana ficou no passado, e ela mesma concordou em conversar com seus filiados para avançar alguns metros, em direção à Gomes Freire, o ponto de procura por clientes.

No âmbito do relacionamento dos que chegavam com o universo estabelecido na Lapa por tradição outras arestas também foram aparadas. Havia ali uma memória que precisava ser respeitada, sob pena de o novo empreendimento afundar na falta de identificação com as características de uma região que cheira a história do Rio. Essa assimilação tornou-se mais tranquila por princípios de vida, e culturais, comuns aos três sócios. Dos pais, Marianna herdou um sentido de universalidade e de respeito à cultura do Brasil em suas mais distintas vertentes. Sua formação consolidou-se por conta do intercâmbio de ideias e vivências com amigos que também comungavam uma visão de mundo na qual é traço marcante a deferência a legados culturais do Rio, em particular, e do país, em geral. Thiago e Carol, por sua vez, são formados numa família que respira cultura brasileira. Eles são primos em primeiro grau de Chico Buarque, que, aliás, nunca se apresentou no Palco Luiz Carlos da Vila (Thiago gosta de brincar: “Ainda aguardamos uma apresentação dele” – O Globo, reportagem citada). Mas, por sua vez, Miúcha e Cristina Buarque, irmãs de Chico, já se apresentaram diversas vezes na casa. O pai de Thiago e Carol, Antonio Pedro Cesario Alvim, é irmão mais novo de Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda, Memélia, grande mulher que, entre outras ações em prol da cultura brasileira, ajudou nas pesquisas e datilografou os originais de “Raízes do Brasil”, obra seminal do marido, Sérgio Buarque de Hollanda. Os dois irmãos se alimentaram da cultura brasileira sem sair de casa, e aprenderam a cultuá-la, a respeitá-la como parte inerente da formação do país com todas as idiossincrasias e maravilhas que se juntam para formar o que se convenciona chamar de tradição brasileira. Portanto, respeitar as características culturais de uma Lapa que então se batia entre a História e o Destino, para além de agir no sentido de inserir no bairro caminhos rumo à modernização, com apreço a seu perfil, não os faria soar falsos. Era apenas decorrência de opções de vida.

Essas, as razões no âmbito da formação de cada um, que contribuíram para manter no nível da suavidade, blindada contra grandes trancos, o relacionamento comercial com o então status quo da Lapa. No que dizia respeito a aspectos urbanísticos, outras circunstâncias também se juntaram para levar ventura ao novo empreendimento. Com o fechamento temporário do Circo Voador, decorrência da vendeta de Cesar Maia e Conde contra a lona, a boemia na região estava praticamente restrita ao Nova Capela, que ficava aberto durante toda a madrugada como um refúgio para notívagos em geral – artistas, intelectuais, jornalistas, proxenetas, homens da lei ou dela apartados.

– A Lapa era mais frequentada entre a parte da manhã e o final da tarde. O Capela, não. Mantinha esse clima de boemia, e as coisas aconteciam ali. O cara fazia um show no teatro, no Rival ou nas casas da Cinelândia e redondezas, e depois iam pra lá – relembra Thiago.

Tal revezamento de público foi determinante para conter o esvaziamento completo da região. Esse eixo da cidade, mesmo degradado, mantinha uma pulsação comercial e – ainda que parcialmente – cultural que lhe preservou os sinais vitais, em especial devido ao intenso movimento de transporte público. Por ali passava, ou ali fazia ponto, uma frota de ônibus que alimentava um sistema de interligação para todos os cantos da cidade. Dessa particularidade resultava a circulação de um público potencial para os empreendimentos da área. A tradição boêmia do bairro também contribuiu para impulsionar a revitalização: na Zona Sul, por exemplo, abrir uma casa noturna implica ter de driblar, façanha às vezes incontornável, legislações restritivas, oposição de moradores e outras dificuldades. Thiago, Carol e Marianna já haviam experimentado esse dissabor no empreendimento do Parque das Ruínas, em grande parte inviabilizado pela resistência da vizinhança ao incremento do movimento de carros nas ruas próximas, ou pelas queixas contra o som do jazz que ali se produzia.

– A Lapa, ao contrário, era receptiva a esse movimento. Sempre foi um bairro de boêmios. Quem mora no bairro em geral frequenta a boemia da área, que tem história, muito folclore. É um universo que seduz as pessoas. Aproveitamos esse embalo. Paralelamente, já havia alguns movimentos de renascimento da região. O Carioca da Gema se enquadrou nesse perfil histórico, e isso ajuda a explicar por que a casa foi tão bem recebida na noite dessa parte do Centro histórico do Rio – analisa Thiago.

Na citada entrevista de 2015 ao GLOBO, Thiago ratificava em retrospecto essa visão premonitória, ao fazer um balanço dos 15 anos da casa:

— A Lapa carecia de uma casa para se ouvir samba ao vivo. (...) Era meio loucura apostar num bairro decadente, mas a gente achava que a região ia renascer. (...) Como ninguém queria vir para cá, investimos R$ 40 mil para pôr a casa em funcionamento, no dia 21 de junho de 2000.

“Com menos de um mês de funcionamento – registrava a reportagem do GLOBO – a casa já tinha fila na calçada. O segundo andar, que funcionaria como um lugar para jogar sinuca, teve que ser alterado rapidamente para virar um espaço com mesas e cadeiras. Na comemoração de um ano do Carioca da Gema, coube a Paulinho da Viola comandar a festa num salão lotado”. Essa apresentação de Paulinho, que aliás se transformaria numa das noites históricas do Carioca, consolidou nos três sócios a certeza de que haviam ganhado a aposta no futuro do bairro, e do empreendimento. Foi o que deixou claro na entrevista a sócia Marianna:

– Quando vi o Paulinho no palco, tive certeza de que não havíamos errado.

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