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"Uma casa de bambas-A História do Carioca da Gema na Lapa -Capítulo 2

Atualizado: Mar 25

Autor: Cesar Tartaglia


Por assim dizer, o Carioca da Gema começou a nascer 45 quilômetros a oeste do tradicional centro boêmio do Rio. A gênese dos movimentos empreendedores que juntaram Thiago, Carol e Marianna remonta a um casarão no Recreio dos Bandeirantes, na primeira metade dos anos de 1980, um imóvel da família de Marianna. Nele, Thiago, Marianna e sua mãe, Ely Penido, montaram uma casa de festas. Dona Ely, muito bem versada em gostos e temperos, cuidava de toda a gastronomia – uma expertise que ela trouxera dos Estados Unidos. Casada com Henrique Penido, alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Ely fora morar lá com a família, acompanhando o marido durante o tempo de sua missão na sede do BID, em Washington. Marianna foi para lá aos 14 anos. Fez high school e seis meses de universidade, nada ligado a mesas e fogões, além de um curso de computação. Mas, a todas essas, o DNA gastronômico da mãe não demoraria a começar a se manifestar na filha. Era questão de tempo, embora, por essa época e mesmo dali pra frente, mesmo ligada ao showbiz da noite, ela tenha se sentido atraída mais para o aspecto visual dos empreendimentos. Na época, ela estava voltada especialmente para moda (aqui no Rio, fez Senai-Cetiqt e cursos de decoração de interiores).

– Minha mãe sempre cozinhou bem pra caramba. Minhas tias eram boleiras. Meus pais tinham uma vida social intensa nos Estados Unidos, davam jantares em casa. Ela fez cursos de gastronomia, gostava mesmo da coisa – conta Marianna.

Em 1984, Marianna retornou ao Brasil, para morar com a avó.Reencontrou o ensino superior, fazendo Turismo. Largou, foi para Comunicação, que também ficou pelo meio do caminho. Tentou novamente o Turismo, mas a essa altura, já começando a ganhar seu próprio dinheiro, o desinteresse pela universidade se impôs:

– Você começa a trabalhar muito cedo, já tem sua própria fonte de renda, e perde o interesse em se formar.

Entre idas e vindas na formação e nos primeiros passos na vida profissional, a trajetória de Carol se assemelha à de Marianna. Na primeira metade dos anos de 1980, ela fez vestibular para Direito e, depois, Comunicação. Não completou nenhum dos dois cursos, quase por decurso de prazo. Na iminência de ser jubilada, Carol tomou a iniciativa de abandonar a faculdade. Nesse meio tempo, voltou-se para a moda. Foi vendedora em lojas de grifes conhecidas até alcançar o posto de gerente da Ralph Lauren em Ipanema – na prática, era mandachuva na representação da marca em todo o Rio. Foi nesse mister que acabou consolidando a amizade com Marianna, iniciada em noitadas no Baixo Gávea. Com os olhos voltados para o mundo fashion, as duas trabalharam na Benetton – Carol na loja de Ipanema, Marianna na da Gávea. A jornada de ambas no chamado “mundinho” se firmou e se encerrou na Ralph Lauren, Marianna como vitrinista (depois de um período como vendedora), empreitada com a qual mais se identificava, e Carol na gerência.

Paralelamente a preocupações com balancetes, entradas, saídas e estoques na Ralph Lauren, Carol – assim como Marianna – começou a se voltar para a área na qual se fixaria de fato. Ela ajudava a mãe, Maria Eunice Cesário Alvim, pioneira no Rio na montagem de bufês. Maria Eunice montara com a amiga Sônia um negócio de tortas, que depois derivou para outros tipos de alimentação. Foi ali que Carol deu os primeiros passos rumo à gastronomia como opção profissional: com a mãe, ela ralava metaforicamente, acumulando o trato com doces e carnes, e literalmente – neste caso, preparando cebolas e outros condimentos para os pratos do empreendimento familiar. Carol tomou gosto e logo montou seu próprio negócio, em sociedade com a irmã Margarida. A dupla montava festas e fornecia patês e mousses.

– Nós sempre saíamos juntas. Gostávamos de comida, bebida e a gente sempre se cruzava na rua. Estávamos sempre juntas, fazendo bagunça, uma época muito boa – recorda-se Carol.

A interseção de Thiago nesse caminho deu-se em 1985, quando ele conheceu Marianna e, em seguida, começaram a namorar. Dois anos depois ele foi trabalhar, como estagiário no Departamento Jurídico, numa franquia da Coca-Cola que fora comprada por um parente, Antonio Carlos Vidigal. Seu projeto inicial era ficar nesse setor, em obediência a sua formação de advogado. Mas o Direito não era exatamente a sua praia, ainda que o período de estágio no departamento de demandas judiciais da multinacional tenha contribuído para abrir seus caminhos rumo ao marketing cultural, no qual descobriu a definitiva afinidade. O escritório jurídico da empresa ficava em Higienópolis, na Rua Magda, quase na confluência com a Avenida Itaóca. Dali, num estirão, chegava-se a Bonsucesso, a Ramos, à Rua Uranos, pontos cardeais do sempre efervescente movimento musical ligado ao samba da região – Cacique de Ramos, botecos com pandeiro e violão, sardinhas de balcão e porções de moela, quadra da Imperatriz Leopoldinense. Como na imaginação do sambista:

Mais vale a simplicidade

a buscar mil novidades.

E criar complicação

esquecendo o bom e o útil.

Renegar o que é nosso

gera insatisfação

O samba-enredo da Imperatriz em 1995 (“Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube... lá no Ceará”, de Eduardo Medrado – que, aliás, se tornaria assíduo frequentador do Carioca da Gema –, João Estevam, Waltinho Honorato e César Som Livre), que cantava a epopeia do Equus asinus no sertão nordestino, não chegou a abalar as convicções mangueirenses de Thiago. Mas, profético e com muito balanço, contribuiu para consolidar os novos caminhos abertos para o advogado que, de estagiário no jurídico da Coca-Cola, sairia da franquia, em outubro de 1995, como coordenador de eventos. E definitivamente picado pela mosca do samba.

– A gente ia muito na Imperatriz, ia na Rua Uranos. Foi aí, pelas obrigações do setor de marketing e pela perspectiva de juntar prazer e trabalho, que me apaixonei pela agitação dos eventos na área cultural – recorda-se Thiago.

Com a volta de Marianna ao Brasil, o casarão da família no Recreio apareceu como uma oportunidade de negócios. Dona Ely, com a ajuda de Marianna, começou a fazer festas, por encomenda ou pela ocupação do imóvel com eventos próprios. Nessa empreitada passaram a contratar Carol para fazer o bufê. A coisa andou, mas numa proporção que não era ideal. Na época, o Recreio era um fim de mundo, e havia problemas adicionais (barulho, movimento de carros etc.) com a vizinhança. De qualquer forma, esse caldo primevo deu liga a uma parceria formal, a La Pazzia (no italiano, loucura, extravagância, insanidade), uma sociedade que juntou dona Ely, Marianna, Thiago, Carol e Celina, irmã destes dois. Carol entrou na dança já com a sociedade consolidada: Marianna, que se casara com Thiago em meados da década de 1990, dividia a participação na casa de festas com trabalhos de free lance, como vitrinista na Ralph Lauren. Ela tinha dificuldade de conciliar seus afazeres profissionais com as atenções para Bibi (Gabriela Penido Cesario Alvim), a primeira filha do casal, e Pedro Henrique, ou PH, o segundo. Depois, Carol igualmente se casou, os compromissos paralelos com a Ralph Lauren também aumentaram em razão da compra da marca pela São Paulo Alpargatas e veio sua primogênita, Maria Antônia. Como a aposta era no crescimento da casa de festas, e em vista da dificuldade de Marianna e Carol se dedicarem integralmente ao negócio da sociedade, os sócios convidaram Celina para se juntar a eles.

A casa de festas foi a base para a realização de diversos eventos da sociedade, os sócios como promotores ou como convidados.

– Fizemos o lançamento de filmes, fizemos bufês e até o catering de um Prêmio Multishow, no Canecão – conta Carol.

O passo à frente na sociedade deu-se quando La Pazzia começou a fornecer pratos para a cozinha, e depois assumir a administração do bar do Emporium 100, um antiquário na Rua do Lavradio. O convite foi feito por Lefê Almeida.

– O Lefê, que fazia a programação musical do antiquário, chegou pra gente e propôs: “Pô, vocês têm essa coisa do bufê... Por que não fazem comida pra entregar aqui?” – conta Marianna.

Lefê era um apaixonado incondicional pelo samba. Ele tinha uma grande mágoa: não aceitava o tratamento discriminatório que era dispensado ao mais popular dos gêneros musicais do Rio – pela mídia, que então torcia o nariz para esse tipo de música, e pelos produtores, que, em vez de pagar cachês para os músicos, ofereciam-lhes trabalho em troca de uma cerveja, um prato de comida. Em contraposição, quando convidavam um artista ligado a outras correntes da música brasileira pagavam-lhes generosamente.

Seus movimentos na noite e no show business alternativo começaram na década de 1960, como aplicado observador da cena musical carioca – em especial sua paixão, o samba. No início dos anos de 1980 foi linha de frente do movimento que contribuiu para recuperar o então moribundo carnaval de rua do Rio, numa época em que o chamado tríduo momesco, noves fora a grande área do subúrbio dos Clóvis e blocos de sujo, resumia-se, entre as zonas Norte e Sul, ao cercadinho de luxo dos desfiles de escolas de samba, principalmente após a inauguração do Sambódromo, em 1984. Sua ligação com a Lapa começou na década de 1990, quando fez a produção de diversos shows em casas noturnas – como a de apresentações do grupo Dobrando a Esquina, no finado Arco da Velha.

O convite do seminal agitador cultural de uma Lapa então às portas do renascimento derivou para uma previsível sociedade. Plantou-se no Emporium o Bar do Antiquário, com a proposta, audaciosa para a época, de juntar relíquias físicas com preciosidades e novidades do samba, uma mistura regada a boa comida. Foi uma explosão, sucesso de público e de mídia. De tal forma que, devido à repercussão, o Antiquarius fez chegar aos sócios uma notificação extrajudicial reivindicando, por semelhança, o direito exclusivo de explorar a marca “antiquário”.

– Eles tinham o domínio do nome, e, apesar de os dois títulos não serem exatamente iguais, tivemos de ceder – explica Marianna.

Despojados do nome que fazia referência direta ao espaço físico onde o empreendimento estava montado, os sócios foram à cata de outro nome. Também dessa vez, a escolha concentrou-se numa das matérias-primas da sociedade – o samba. Deu-se aí o nascimento do Coisa da Antiga. A referência não podia ser melhor: o nome foi extraído de uma flor do orquidário de sambas da dupla Nei Lopes e Wilson Moreira:

“Na tina vovó lavou,

vovó lavou

a roupa que mamãe vestiu

quando foi batizada.

E mamãe quando era menina

teve que passar,

teve que passar

muita fumaça e calor no ferro de engomar.

(...) Hoje mamãe me falou de vovó,

só de vovó.

Disse que no tempo dela

era bem melhor.

Mesmo agachada na tina

e soprando no ferro de carvão

tinha-se mais amizade

e mais consideração.

(...) Disse afinal que o que é liberdade

ninguém mais hoje liga

Isso é coisa da antiga!”

Com um cardápio gastronômico cujos pratos homenageavam artistas ligados ao samba e outro, de sambas, temperado pelo apurado gosto musical de Lefê, o Coisa Antiga manteve o sucesso da razão social anterior. Mas, sob o novo batismo, durou pouco. A parceria que dera vida ao movimento gastronomo-musical em torno do Emporium se desfez. Olhando em retrospecto, o fim da sociedade no antiquário era uma espécie de anunciação de que a massa do Carioca da Gema já estava entrando no forno. La Pazzia levou para o Parque das Ruínas a experiência acumulada na trajetória entre a casa de festas do Recreio e o posterior début no centro boêmio do Rio. A proposta, dessa vez, era promover apresentações de jazz em Santa Teresa. Os sócios chegaram a subir com a estrutura de catering do Recreio, mas as condições físicas e, logo perceberam, ambientais do parque eram inadequadas. Físicas porque não havia como adaptar as necessidades operacionais de serviço de modo a atender à demanda; ambientais, porque começaram a surgir reclamações da vizinhança e imposições do Município. Eles voltaram para o imóvel da Zona Oeste e lá mantiveram uma pequena estrutura. Paralelamente, montaram uma cantina na unidade da Faculdade Cândido Mendes em Ipanema, chamada Intervalo. Também esta foi uma empreitada destinada a se evanescer.

– Montamos os dois empreendimentos quase ao mesmo tempo. O jazz no Parque das Ruínas começou a emplacar, mas quando víamos no horizonte finalmente a chance de consolidar a atração a prefeitura foi lá e acabou com o troço. Alegou-se de tudo, como barulho em área residencial, problemas com vizinhos etc. Começamos a perceber que o bufê não tinha muito futuro. Levar e montar as coisas dava trabalho, e os negócios não davam retorno razoável. O futuro seria investir em algo em que tivéssemos total controle do negócio, desde o espaço físico até a montagem da estrutura de funcionamento. Tínhamos a experiência do Coisa Antiga, que deu certo mas que, por problemas na sociedade, acabou não durando muito. Mas tínhamos a sinalização de qual caminho deveríamos tomar – observa Marianna.

O farol da Lapa já havia entrado no radar do trio com a experiência do Coisa Antiga. Mesmo antes, o centro boêmio emitira sinais atraindo a atenção de Thiago, Marianna e Carol. Em 1996, antes de a parceria com Lefê Almeida no Emporium se consolidar, os três haviam assistido a um show na casa noturna Arco da Velha – aliás, com produção de Lefê. Thiago ainda se lembra de sua reação:

– Aquilo me impactou. Saímos dali, eu, Carol e Marianna, com a ideia fixa de montar uma casa como aquela. Falamos com o Lefê, mas ele desencorajou qualquer iniciativa que tivesse como base a casa do Recreio. Acertadamente, ao menos na época, ele observou que quem ouvia ou fazia samba não ia à Zona Oeste, por ser contramão. O que pensávamos fazer no Recreio, que tinha uma boa piscina, era transformar a casa num clube de samba, aonde as pessoas iriam almoçar, poderiam levar as crianças, e rolaria samba a tarde inteira. Era mesmo um projeto inexequível para a época. Mas a semente de alguma coisa nesse sentido estava plantada, e depois acabamos fechando a parceria com Lefê para o empreendimento no Emporium. A Lapa estava no nosso caminho.

Já sem a participação de Celina e dona Ely na sociedade, o trio começou a buscar o espaço onde pudessem realizar o projeto da casa noturna própria. Chegaram a embicar a antena para a Zona Sul, mas o futuro era mesmo a Lapa. A vontade semeou a ação, e a ação levou-os a um naco entre as ruas do Lavradio e Gomes Freire. O radar fixou-se inicialmente no imóvel do número 81. Além de bem localizado e espaço suficiente para abrigar os planos do trio, o casarão tinha adicionalmente um apelo sentimental para Thiago e Carol: o prédio lhes trazia do passado a imagem a casa da avó na Rua Sorocaba, em Botafogo, onde passaram bons momentos da infância. Era para onde, invariavelmente, os dois irmãos iam depois de sair do Colégio São Patrício, na Rua Visconde Silva, até que sua mãe fosse buscá-los. Aliás, Lefê, tio de Thiago e Carol, também foi criado naquela casa. Por afinidade histórica, o prédio estava bem recomendado. Mas restava vencer o desafio de questões físicas, que afinal se revelaram intransponíveis – a razão pela qual o Carioca da Gema deixou de se instalar dois metros à direita do seu endereço definitivo.

– De cara gostei do lugar. Aquilo me lembrou a infância, a felicidade daqueles tempos em que nossa única preocupação era brincar e estudar – diz Thiago.

Relativamente bem conservado, depois de ter passado por uma reforma em seguida a um incêndio que, pouco antes, quase o consumira totalmente, o prédio 81 caiu na mira dos sócios. Thiago buscou informações sobre o imóvel e foi bater num hotel na Rua André Cavalcanti, próximo à quadra onde hoje está instalada uma filial do Supermercado Mundial. Era onde despachava o proprietário, ou quem o representava. Primeira dificuldade: superar a desconfiança do negociador com aquele sujeito de rabo de cavalo, cheio de planos mas com um visual que aconselhava prudência antes de partir para assinaturas e outras formalidades. A juventude de Carol e Marianna, que o acompanhavam nas tratativas, também não contribuía muito para afrouxar a inicial desconfiança do locador. O grupo ao qual ele estava à frente já era dono de diversos imóveis na região, principalmente naquele quarteirão da Mem de Sá entre Lavradio e Gomes Freire. Era um patrimônio que, à época, ainda não se transformara na atual máquina de fazer dinheiro. Os bens estavam consolidados, mas os rendimentos deles advindos ainda patinavam em escala muito aquém daquela que se materializaria alguns anos depois. A região estava encravada no centro da peleja urbanística e de ocupação do solo entre a decadência e a revitalização, mas a vantagem ainda contemplava a degradação. A destinação dos imóveis, em sua maioria abrigando oficinas de conserto de aparelhos eletrônicos e de automóveis, e outros pequenos negócios, permanecia desconectada de uma realidade que, por dinâmica, reclamava novos usos. Essa visão tacanha, de balcão de mercearia, freava a modernização. Thiago conta:

– Eu me peguei nesse aspecto, do uso pouco rentável dos imóveis, para convencê-lo. Disse pra ele: “Nós vamos dar uma nova vida para seus negócios”. Apesar do meu rabo-de-cavalo e do visual pós-adolescente de Carol e Marianna, conseguimos dobrar o sujeito.

Segunda dificuldade: convencer o locador a autorizar a realização de reformas e de algumas adaptações no prédio. Os locatários pretendiam demolir uma escada nos fundos, uma peça de construção feita de ardósia, que destoava do visual do casarão. Um pecado estético, mas cadê que o proprietário concordava com o pleito? Por algum motivo, ele tinha uma afinidade incontornável com a escada, ademais de se prender ainda a uma ponta de desconfiança: aqueles rapazes pareciam estar pilotando um projeto que tinha tudo para terminar em nada. Retomar o imóvel, tudo bem, seria parte do jogo jurídico de um eventual desastre no empreendimento. Mas mexer na escada? E logo a escada de sua predileção – isso, certamente, lhe cheirava a dar uma chance além da conta ao azar. Hoje Thiago vê com bom humor a renitência do proprietário, que quase lhe custou o abortamento do projeto Carioca da Gema:

– Ele olhava meu cabelo grande, a gente tudo garoto. Carol e Marianna ainda mais novas do que eu. O espanhol não levava fé que a gente pudesse fazer o samba dar certo na Lapa. Para ele, aquela aventura tinha tudo pra dar com burros n’água.

Com desconfiança ou não, o cacife foi suficiente para levar à assinatura do contrato de locação – mas a escada do 81 permanecia como parte inegociável do trato, uma pedra no caminho do empreendimento. Nada feito. O radar, então, deslocou-se e alcançou, dois metros à esquerda, o imóvel do número 79. Era um sobrado praticamente gêmeo do vizinho, mas estava literalmente caindo aos pedaços. Não estava abandonado porque, como uma espécie de cortiço, abrigava umas dez famílias de pedintes, que o haviam ocupado. Era dividido em cômodos, como quartos, com um banheiro comum. Na área onde hoje fica o mezanino havia um buraco, que se abria para um espaço – onde morava um família inteira – separado do resto da construção por um vão de quase um metro de largura. Na área dos atuais banheiros outro buraco, menos ameaçador, mas integrado ao todo de decadência do imóvel, era o lar de outra família. Um gueto.

O espanhol, provavelmente em razão do apego à escada do 81, sugeriu ao grupo de jovens empreendedores – ele ainda desconfiado da capacidade daqueles néo-hippies de fazer o samba dar certo naquele nicho da Lapa – reformar o prédio, moldando-o com características próprias para o funcionamento de um bar. Eles compraram a ideia, porque lhes oferecia a possibilidade de montar uma cozinha apropriada, preparar uma área para os sanitários, ter uma área para o escritório e, claro, preservar um espaço suficiente para embalar a alma do empreendimento – um salão com palco para a apresentação dos artistas. O samba ganhava uma chance na Lapa, mas o desafio de lhe dar uma casa própria não era pequeno. Não era da dimensão da tarefa de um Sísifo. Era possível carregar aquela pedra morro acima, mas ela tinha consideráveis arestas.

– No primeiro dia que entramos no imóvel, voltei em casa para calçar umas botas e vestir um jeans. Eu estava de bermudas e fiquei com medo de encontrar animais peçonhentos naquele abandono. Era um espaço imundo, muito sujo. Até seringas recolhemos ali. A escada que levava ao segundo piso estava quebrada, seccionada, formando aquele tal vão. Era preciso fazer um movimento acrobático pra alcançar o outro lado – conta Thiago.

As obras para botar a casa nos trinques se estenderam por cerca de seis meses. O Carioca da Gema entrava em trabalho de parto.

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av.mem de sÁ, 79

Razão Social: thianas eventos Ltda.

CNPJ: 14.022.532/0001-34

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