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"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPA"-Baby: gigante com alma de passarinho

Autor: Cesar Tartaglia

O corpulento Alexandre Martins é uma das referências do Carioca da Gema, uma espécie de cartão de visitas cujos mais de cem quilos parecem incorporados à fachada da casa.

Quem? Alexandre Martins? A pergunta se justifica para quem é frequentador assíduo do Carioca. Mas de imediato esse cliente de sempre ligará o nome à pessoa se, em vez do registro da certidão de nascimento (15 de dezembro de 1970), a referência se der pelo apelido do personagem – Baby. Já para o neófito, o estranhamento será ainda maior: a alcunha carinhosa não casa com a figura indefectivelmente plantada ao portão de entrada do casarão da Mem de Sá. Sensação que não passa da primeira impressão. Corpulento ele é, mas, no trato com clientes e amigos, Baby é uma flor de pessoa.

Casado, pai de um casal de filhos, Baby está no Carioca da Gema desde 2001. Ex-frentista e ex-ajudante de caminhão, ele estava desempregado quando atendeu a um anúncio de jornal: uma casa noturna estava à procura de um segurança para o seu quadro de funcionários.

– Eu não tinha experiência alguma nesse setor, mas sei que tinha o perfil físico compatível. Vim com a cara e a coragem, e felizmente deu tudo certo – conta.

A adaptação ao posto foi imediata:

– Não estranhei nada. Peguei as coordenadas, o que fazer e o que não fazer, e me joguei no trabalho. Adorei de cara a nova função – afirma Baby.

Uma função que lhe rendeu uma galeria de amigos, desde a falecida travesti Luana, “dona” daquele ponto entre os Arcos e a Rua Gomes Freire, passando por clientes de todas as partes da cidade, até – um orgulho que ele exibe via fotos zelosamente guardadas no celular – artistas e celebridades em geral de todo o showbiz do país, craques do futebol e turistas.

– Conheço gente de todo o mundo. Ganho muitos presentes. Faço meu ofício profissionalmente sem destratar ninguém, e as pessoas acabam retribuindo. Tenho muito prazer em fazer o que faço – conta.

Por dever do ofício é uma consequência que, do seu posto de observação, Baby tenha testemunhado episódios de todos os tipos no Carioca, desde os mais divertidos até os mais constrangedores. O dia a dia rendeu-lhe um jeito especial de lidar com cada situação, quase invariavelmente sem precisar fazer cara feia. Tudo na maciota, diverte-se Baby:

– Não preciso partir pra grosseria. Em geral, basta aparecer que minha figura impõe respeito. E não é raro que, com jeitinho, mal-entendidos acabem até em risadas. Ou, no mínimo, sem contrariedades.

Um perfil moldado em episódios como estes que Baby narra:

1) “Fila na porta do Carioca da Gema. Em respeito a todos os clientes, a recomendação é que a vez de cada um entrar seja respeitada. Mas eventualmente é preciso ser um pouco flexível, né? Aí chegam quatro clientes, daqueles de religiosamente às sextas-feiras estarem na casa, já parceiros da gente. Eles chegaram, viram a fila e me olharam desanimados. Pensei que tinha de dar um jeito de colocá-los pra dentro. Nisso chegou um entregador de gelo, com vários sacos para abastecer a casa. Sacos relativamente pesados, ele foi levando um a um pra cozinha. Quando faltavam quatro sacos para descarregar eu disse pro entregador que podia deixar comigo. Chamei o quarteto, apontei pros sacos e mandei disfarçadamente cada um pegar um daqueles volumes e levar pra dentro. De início eles ficaram assustados, mas depois entenderam. Foi um jeitinho pra não deixar os demais clientes desconfiados”.

2) “Temos um cliente aqui, funcionário público em Brasília. Ele bebe muito, e quando não está muitos graus acima é um amor de pessoa. Quando o pote começa a encher, vira outra pessoa. Arruma encrenca, mexe com a mulher dos outros... Os garçons já o conhecem, e quando a coisa começa a sair do controle vão lá na portaria me chamar. Tem um detalhe: ele respeita incondicionalmente a chefe dele, também cliente frequente. O cliente pode estar fazendo o que for, se a chefe chama sua atenção o cara larga tudo e fica pianinho. E isso é um trunfo. Uma noite, o sujeito estava lá no jirau, o clima já estava esquentando porque outro cliente não gostara de ver que a mulher estava sendo assediada. O troço ia acabar em briga. Cheguei no inconveniente, pedi pra ele parar, ele tentou desconversar, e eu o chamei pra ir lá fora. Ele disse que não ia, mas eu alertei que a chefe dele estava no portão esperando pra entrar. E que queria falar com ele. Na mesma hora o cara largou tudo e desembestou escada abaixo. Quando chegou na portaria, perguntou pela chefe, eu disse que ela tinha ido até a esquina da Lavradio e que o esperava lá. Ele foi, viu que não havia ninguém lá, voltou e ficou me xingando quando o barrei no portão. Mas depois se mancou e foi embora. E não deixou de voltar outros dias.

Exemplos de savoir-faire de um gigante com alma de passarinho.

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