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"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPA"-Paulão: bom da cabeça, bom dos pés

Atualizado: Mar 22

Autor: Cesar Tartaglia

Os caminhos de Paulão Sete Cordas e do trio Thiago/Carol/Marianna se cruzaram no Emporium 100. O violonista marcava ponto ali onde se pode dizer que foi a gênese da caminhada dos três sócios até a consolidação, no Carioca da Gema, no showbiz da Lapa. A aproximação teve o dedo de Lefê.

Quando o Carioca foi aberto, Lefê convidou o músico para se apresentar na casa. Entre convite e apresentações de fato, decorreu pouco mais de um ano. Paulão montou na grade o projeto semanal Enredos de Terreiro, às segundas-feiras. Com Rixxa na voz, ele criou uma cozinha da pesada: na percussão – uma pequena, mas típica e empolgante bateria – Pretinho da Serrinha, Esguleba, Jaguara, Trambique, Silvão... só número baixo. No violão, o próprio maestro e, no cavaquinho, Marcio Hulk. Depois, Paulão saiu da formação e botou Walter Silva no seu lugar, mas continuou por ali fazendo o controle de qualidade do grupo. Essa foi a origem das bem-sucedidas apresentações de sambas-enredo que Rixxa manteve nas segundas do Carioca.

Paulão saiu para ocupar as terças-feiras, tocando chorinho com o grupo Pé de Moleque. Eram ele, no sete-cordas, Ramón, no seis, de novo Hulk no cavaquinho, Netinho no pandeiro, LuisLouchard no contrabaixo, Kiko Horta no acordeom e Maionese na flauta. Nesse projeto, o violonista sempre dedicavaum set a gente nova interpretando nomes já consagrados pelo público – Julio Estrela cantando Gonzaguinha, Leandro Fregonesi levando Luiz Carlos da Vila, Alice Passos mandando Nelson Cavaquinho, por aí. Paulão convidava os jovens, fazia os arranjos dos shows e tocava.

– A gente ensaiava e tudo. Acho que era o único conjunto que ensaiava para tocar em bar – diverte-se Paulão.

As múltiplas atividades de Paulão, um ser praticamente onisciente em tudo o que é trabalho de qualidade no mundo do samba, obrigaram-no a sair da grade musical do Carioca. Mas sempre que pode deixa a sua marca em produções específicas da casa – por exemplo, acompanhando apresentações de Roberto Silva, Moacyr Luz, Luiz Carlos da Vila e outros mais. E, a tudo isso, juntou-se a criação e consolidação do Bloco do Carioca da Gema.

– Idealizou-se o bloco e me chamaram pra tomar conta. Eu já tinha aquela experiência de fazer samba com caixa, repique... Minha praia.Montamos uma equipe boa, que, com poucas modificações, está lá até hoje (fevereiro de 2018)–conta o violonista.

Paulão nasceu (29 de setembro de 1958) Paulo Roberto Pereira Araújo, veio ao mundo com DNA de músico (seu avô era regente de banda) e, zagueirão tipo muralha, destinado a ser craque de futebol. Falou mais alto a veia musical, até porque para onde seus olhos se viravam lá estava o mundo do samba. Sua impressionante cultura musical é, por assim dizer, fruto de um processo osmótico. Teve a influência do avô na sua decisão de estudar teoria musical, algo que antecedeu mesmo o aprendizado do violão propriamente dito. Cria do Jacarezinho, ele conviveu com os bambas da área: Bico da Coruja, Zé Dedão, Nonô, Mozart (que depois se bandeou para a Mangueira). E, entre todos, em razão de ter sido responsável por uma guinada definitiva do violonista rumo à profissionalização, Monarco:

– Ele foi morar no Jacarezinho, e foi onde o conheci. Daí ele me apresentou Nelson Cavaquinho, depois toquei com Zé Kéti. Minha vida foi toda assim, convivi com o samba toda a minha vida.

Em atenção a um convite de Manacéia, Monarco o carregou para tocar com a Velha Guarda da Portela. O autor de “Manhã brasileira” era uma espécie de gerente da Velha Guarda. Para um portelense de coração, é de se imaginar a emoção de conviver e trabalhar com bambas como Chico Santana. Armando Santos. Casquinha, Alberto Lonato, o próprio Monarco, Mijinha. Alvaiade aparecia de vez em quando e levava um samba. Argemiro era da ala jovem. Monarco também o apresentou a Alcides Malandro Histórico, já bem velhinho.

Na cozinha da Velha Guarda Paulão substituiu Jorge da Conceição, pai de Gilsinho, puxador de samba da Portela. Por sua vez, pouco mais de vinte anos depois, foi substituído por Guaracy. Ainda no terreiro de Madureira, ele esbarrava com seu Lincoln, cunhado de Manacéia, e tocava com Osmar do Cavaco, pai do compositor e ex-presidente da Portela Serginho Procópio, que, no Carioca da Gema, se juntaria a outros bambas para formar o Tempero Carioca.

Nessa estrada há um ramal todo especial relacionado a sua convivência com Zeca Pagodinho.

– Nossa relação vem de uma amizade de família. Eu andava muito com Meco (Jorge Roberto, irmão mais velho de Zeca), que cantava muito bem, por sinal. Eu era do Jacarezinho, e a família do Zeca era de Del Castilho. Todo mundo pensa que ele é de Irajá, mas nada disso.

Quem morava em Irajá era o velho Thybau, tio-avô de Zeca e patriarca da família. O velho recebia amigos e parentes todas as sextas-feiras para fins de semana regados a samba e mocotó.

– Quando o pessoal não ia, ele fingia que estava passando mal. Todo mundo corria pra lá, o pessoal chegava e não tinha nada de doença. Mas já que estavam lá, lá ficavam, e o samba comia. Vinha um mocotó, a gente tocava dia e noite sem parar. Todo mundo era bem-chegado – relembra Paulão.

A amizade inicial com Meco fez Paulão se aproximar de Zeca. O violonista já era músico, mas o cantor ainda trabalhava no Serpro. Já ensaiava composições, mas, em meio ao alvoroço de Irajá, precisava sairpara exercer sua função de contínuo, ainda na pele de Jessé Gomes da Silva Filho. Numa sacola de supermercado ia o cavaquinho. O curioso é que, apesar da convivência que remonta à juventude de ambos, e mesmo tendo participado de todos os discos de Zeca, Paulão foi gravar pela primeira vez com o amigo por acaso.

Não foi Zecaquem chamou Paulão. Quando se encontraram pela primeira vez num estúdio, o Transamérica, deu-se a surpresa de ambos sublinhada no seguinte diálogo:

Zeca:

– Tá fazendo o que aqui?

Paulão:

– Vou gravar com um cara aí.

– Com quem?

- Tenho a menor ideia. Me chamaram, só perguntei quando e quanto.

– Vou gravar aí também.

– Legal. Qual estúdio?

–No um.

– Então acho que vamos gravar juntos – arrematou Paulão, e ambos caíram na gargalhada.

Bom da cabeça e bom dos pés, o craque Paulão chegou a ser convidado para treinar nas divisões de base do Vasco. O troço não andou, porque o músico já estava com a vida embicada na direção do samba e do choro. Mas o botafoguense de boa cepa guarda boas lembranças do tempo em que jogar futebol era uma cachaça. Em seu celular, um arquivo guarda fotos esmaecidas de times por onde jogou. Um deles, só de cobra-criada da música: Chico Batera, João do Valle, Paulinho Boca de Cantor, Roberto Ribeiro, Fagner, João Nogueira, Vinicius Cantuária, Carlinhos Vergueiro e o reforço do craque Afonsinho. Outra formação guardada em foto traz as lembranças de coisa mais séria no futebol: um jogo contra veteranos do Santos no campo da Portuguesa Santista. Do lado dos coroas, Zito, Mengálvio, Del Vecchio (que teve a infelicidade de ter na sua sombra, no banco de reservas, ninguém menos que Pelé), Pagão. O jogo foi pau a pau, equilíbrio que não se quebrou sequer quando, no segundo tempo, os adversários espertamente trocaram Zito e Mengálvio pelos “garotos” Clodoaldo e Negreiros. Deu dois a um pro máster do Santos. Paulão saiu com o orgulho em dia, principalmente porque, aos 43 do segundo tempo, ainda botou uma bola na trave, lance que poderia ter mudado a história – pelo menos a história particular de Paulão com o futebol.

Enfim, um craque da cabeça aos pés.


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