• Carioca da Gema

"Uma casa de bambas-A HISTÓRIA DO CARIOCA DA GEMA NA lAPa"capitulo 1

Atualizado: Mar 22

Autor: Cesar Tartaglia

“Ai minha mãe.

Minha Mãe Menininha.

Ai minha Mãe

Menininha do Gantois”


Com os versos quase sagrados de Dorival Caymmi em sua “Oração da Mãe Menininha”, a voz da cantora Teresa Cristina, melodiosa e potente, se projetava para fora do velho casarão do número 79 da Avenida Mem de Sá. Diferentemente de hoje, por conta de uma blindagem acústica montada no imóvel para atender a obrigações ambientais, o som que ali se produzia na noite daquela sexta-feira estrelada não ficava restrito às paredes do prédio. As grandes janelas, abertas em par, contribuíam para, ao menos auditivamente, amenizar a curiosidade de uma pequena multidão que se acotovelava na calçada naquele trecho entre outro antigo casarão, como se outrora fora geminado ao vizinho, no número 81, à direita de quem entra, e, à esquerda, uma finada loja de canos e silenciosos que ocupava a esquina com a Rua do Lavradio. Lá dentro, outra multidão se espremia entre um salão, um mezanino e o que antes teria sido o quintal da casa, transformado em área de escape e corredor para os dois banheiros do térreo. Na hora de maior pico, vibrando, quase em epifania no momento em que Teresa Cristina puxava a “Oração”, o público presente chegou a quase 400 almas (ao fim do ágape, os donos da casa contabilizaram uma frequência, entre entradas e saídas, mas não ao mesmo tempo, de mais de 600 convidados, eventuais penetras – que sempre os há – e outros mais que, por alguma razão, conseguiram furar a muralha de gente ali acotovelada.

O canto de Teresa em louvor a Maria Escolástica da Conceição Nazaré, já por batismo destinada a promover as coisas da fé, e por desígnios divinos transformada na iyálorixá Menininha, do terreiro Ilê IyáOmi Axé Iyamassê, ícone do candomblé, marcava o fim do dia 16 de junho de 2000. Pela voz da cantora, acompanhada pela cozinha do Grupo Semente, no palco plantado entre o centro da sala principal da casa e os enormes janelões, dava-se – oficial e espiritualmente – por inaugurado o Café Musical Carioca da Gema, ou simplesmente Carioca da Gema, um dos protagonistas da revitalização física e cultural da Lapa, um templo do samba, uma trincheira da boa música no coração boêmio do Rio. Uma casa de bambas. Era a culminância de um sonho, temperado em empreendimentos anteriores, acalentado pelos empresários Carlos Thiago Cesário Alvim, sua irmã Carolina (para todos simplesmente Carol) e a então esposa de Thiago, Marianna Penido.

Foi uma coincidência, mas não passa em branco o simbolismo de a casa estar embicada justamente entre um imóvel cuja destinação ainda se encaixava no perfil de uma Lapa que estava dando adeus a um passado recente, contaminado por muitos anos de abandono pelo poder público, e outro de uma Lapa que chegava, a Lapa da revitalização, que então retomava sua tradição de centro boêmio. A oficina de canos e silenciosos de automóveis, o vizinho à esquerda de quem entra, na esquina da Lavradio, ainda resistiria por uns parcos anos, teimosa lembrança de um tempo cinzento, de deterioração física e cultural de um Rio antigo, uma degradação cevada pela leniência do poder público, que até o início da década de 1980 parecia irrefreável. Por sua vez, o casarão no número 81, à direita do mesmo ponto de vista, depois de um incêndio encerrava uma etapa de reformas que lhe dariam o perfil contemporâneo. Encravado entre a História e o Destino, o passado e o futuro, o Carioca da Gema começava uma trajetória que contribuiria decisivamente para dar um impulso adiante ao movimento que redescobria o bairro, que reinventava a boemia local e que devolvia à Cidade Maravilhosa uma referência cultural de repercussão internacional.

Em 2008, o jornalista Luiz Fernando Vianna escrevia na Folha de S. Paulo: “Há pouco mais de dez anos, se alguém resolvesse fazer um passeio turístico pela Lapa carioca, seria como ir ao Père-Lachaise, o famoso cemitério de Paris: existe muita gente bacana lá, mas todos mortos. Após cinco décadas de um ocaso que piscou para as trevas, refez-se a luz no bairro, graças a uma combinação de boa música, bons cariocas e nenhuma interferência marqueteira de instâncias governamentais” (“A reinvenção da Lapa”, Folha de S.Paulo, 6 de janeiro de 2008). Naquele ano, a trajetória de revitalização desse nicho do Rio antigo já estava se não pronta e acabada, mas por certo consolidada. Em 2000, quando o Carioca da Gema foi inaugurado, as evidências físicas e culturais de retomada da boemia decerto apontavam para um futuro mais luminoso. No entanto, a região ainda se tateava entre a degradação e a recuperação. Na Mem de Sá, em especial no naco entre os Arcos e a Rua Gomes Freire, a iluminação dividia-se entre a luz que transbordava das poucas casas noturnas já em funcionamento e a luminosidade pálida das estrelas no céu (na noite de abertura dos trabalhos do Carioca da Gema, em especial, à luz das estrelas juntou-se a de uma lua que emprestava aos velhos casarões do entorno um feérico perfil prateado). Só com o avanço da recuperação do bairro as luzes artificiais se imporiam de vez ao brilho do céu. A configuração física da Lapa ia mudando, a deterioração cedendo à reconstrução.

Por sua vez, o cenário cultural também emitia fortes indícios de que ali estava a gênese de um movimento com potencial para se impor, como tal, no cenário musical do Rio – vale dizer, do país. E até mesmo internacionalmente. Mas em 2000 era um risco apostar que a revitalização suplantaria a degradação na Lapa, em especial no que dizia respeito à recuperação física do bairro. Por outro lado, culturalmente os sinais eram mais perceptíveis. A região começava a fervilhar, fruto, em especial, de empreendimentos envolvendo antiquários da Rua do Lavradio – por onde, aliás, cimentou-se parte do caminho empreendedor do trio Thiago/Carol/Marianna – e, de forma mais abrangente, da iniciativa de artistas que, em busca de locais alternativos onde pudessem mostrar seu trabalho, acabaram por aterrissar no bairro. Hoje, olhando em retrospecto, pode-se dizer que esses artistas foram autênticos visionários culturais.

O dínamo em que se havia transformado o Circo Voador, na sequência do seu despejo do Arpoador e consequente aterrissagem nos Arcos, vinha, na conjuntura de então, perdendo força como um dos primeiros impulsionadores do renascimento cultural da Lapa. Plantado à sombra dos Arcos desde o início da década de 1980, recebeu o que então parecia ser o tiro de misericórdia da prefeitura em 1996. Desarmada por determinação do prefeito Cesar Maia, uma ordem absurda sacramentada pelo sucessor Luiz Paulo Conde, a lona só voltaria a reabrir seis anos depois, em 2002. Por sua vez, em 1997 o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz levou para os Arcos o seu movimento Samba de Raiz. Depositário de primeira hora do legado de Candeia, prócer da Portela e um infatigável militante da cultura popular brasileira, Marquinhos carregou para lá, do bairro cujo nome tomou como epíteto, a tradição – consolidada e consagrada por Candeia, o histórico portelense autor de “Luz da inspiração” e “Pintura sem arte” – de reunir em torno de si rodas de samba com artistas dispostos a mostrar suas obras como eco das culturas de suas comunidades. Um saudável hábito cultural que, ao longo das décadas do século passado, tornou-se o dínamo da acumulação de riqueza musical dos subúrbios do Rio. A Marquinhos se juntaram Renatinho Partideiro, Ivan Milanez, Charles da Viola e outros – e ao movimento consagrado ao samba de raiz em plena praça pública começaram a aderir, com ilustres participações, Zé Kéti (que em 1996 acabara de lançar o disco “75 anos de samba”, passando em revista uma brilhante carreira interrompida pela morte, em 1999, decorrência de um processo de falência múltipla de órgãos, quando o compositor tinha 78 anos), Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila, Moacyr Luz, Cristina Buarque e Beth Carvalho, entre muitos outros. O movimento puxado pelo compositor portelense foi um novo marco de recuperação da Lapa, até então temporária viúva do Circo e presa na armadilha de ritmos destoantes da natureza carioca, como músicas latinas, axé music e o pop em geral.

No entanto, a visionária iniciativa de Marquinhos, ainda que uma sólida baliza da resistência e da força do samba, não dimensionou todo o potencial do formato musical que passaria a dar o tom de brasilidade e carioquice na Lapa. Quando o Carioca da Gema foi inaugurado, a aposta de Thiago, Carol e Marianna era arriscada, quase como jogar as fichas em mão fraca. Tanto podia ser uma venturosa barbada, como podia significar um lance num azarão – ou seja, correspondia a ganhar ou perder num ponto da vida de cada um deles em que um salto no abismo corresponderia a comprometer irremediavelmente todas as suas economias. Jogar todas as fichas na Lapa de então implicava não só ter fé no empreendimento, mas sobretudo coragem. Mal comparando, algo como abrir uma casa de shows em Las Vegas, na aridez pré-cassinos, somente por ouvir o barulho de bate-estacas no deserto. E a aposta passava por fichas cujo valor, de algumas delas ao menos, ainda não havia sido suficientemente avalizado pelo mercado. Se a revitalização engatinhava, alguns dos artistas que depois se tornariam referência do samba no país, capazes de por si só lotar grandes casas e arrastar multidões para seus shows, não raro cantavam e tocavam para convertidos. Só para citar alguns dos nomes cujas carreiras estão sublinhadas por temporadas de sucesso no Carioca, em 1999 Moyseis Marques emprestava a voz ao forró em sua primeira banda profissional, o Forró na Contramão, com apresentações em casas como o Ballroom, no Humaitá. Somente em 2001 ele cimentou sua adesão formal ao samba, ao ajudar a fundar o Casuarina, com João Cavalcanti. Moyseis mudou-se de mala e cuia para a Lapa, onde passou a morar e onde se apresentava no histórico e pioneiro Dama da Noite. Outra figura de ponta do movimento musical que embalou a revitalização da região, Luiza Dionizio mantinha em 2000 uma carreira centrada em cantar música ambiente em bares e restaurantes do subúrbio, para aquele tipo de público que se senta mais preocupado em comer do que em ouvir o artista. Cantar na Lapa era um sonho de consumo distante.

– Eu ia pra lá, fascinada por aquela vida ligada à boemia, passava em frente às casas onde já havia música. Entrar que era bom, no entanto, nem pensar: eu não tinha dinheiro – lembra-se a cantora.

Luiza enfim conseguiu uma abertura para se apresentar no Rio Scenarium. Plínio Fróes, sócio da casa e amigo desde sempre de Thiago, levou-a para cantar lá em seus domínios na fronteira da Lapa com a Praça Tiradentes, quase na esquina da Rua do Lavradio com a Visconde de Rio Branco. A região, na verdade, era uma espécie de off-Lapa. Um ano depois de Inaugurado o Carioca, o produtor Luiz Francisco Almeida Cunha, ou resumidamente Lefê Almeida, convidado para cuidar da programação musical da casa, foi assistir ao seu show. Com indicação – e, por decorrência, o aval – do músico Paulão Sete Cordas, Lefê conferiu a performance da cantora e a convidou para substituir Luciane Menezes no grupo Dobrando a Esquina, que então fazia temporada no que seria o futuro palco Luiz Carlos da Vila. Luiza foi, viu e venceu.

Outros artistas já enfrentavam uma trajetória mais sólida, mas é fora de dúvida que as futuras apresentações na Lapa contribuíram para aumentar-lhes o cacife profissional. A cantora Ana Costa navegava nas ondas de uma bem sucedida participação (“Falso pai de santo”) no disco “Butiquim do Martinho”, de 1997, com o Roda de Saia, um grupo só de mulheres, no qual cantava e tocava violão. Depois, já no palco da Mem de Sá, ela fez uma temporada de voz e violão, até emplacar, também no Carioca, os retumbantes shows de uma celebrada dobradinha com Oswaldo Cavalo, lendário imperador e embaixador da Lapa. Por sua vez, o sambista Jorge Agrião – um dos próceres do Tempero Carioca, grupo que se formou em 2005 (nessa primeira formação, com o cantor Moyseis Marques no posto que depois seria herdado por Agrião) e se tornou top da programação do Carioca da Gema – tinha sua carreira ligada à do amigo, parceiro e ídolo Martinho da Vila. O cantor e compositor Marquinho China, que divide com o sambista de Vila Isabel o microfone do Tempero, já era respeitável partideiro em rodas de samba, tinha músicas gravadas por Beth Carvalho e parcerias com Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, entre outros registros. Mas a Lapa lhe fez bem, e vice-versa. A fórmula revelou-se válida para o compositor e cavaquinhista Serginho Procópio (filho do sambista Osmar do Cavaco e integrante da Velha Guarda da Portela), o violonista Evandro Lima, os percussionistas Marquinho Basílio, Nelci Pelé e Marcelo Pizzott, os demais integrantes do grupo, criado pelo homem de samba Paulinho Figueiredo (num primeiro momento, com o cantor Moyseis Marques, depois substituído por Agrião) especialmente para se apresentar no Carioca da Gema – mas em seguida, tendo ampliado seus horizontes, para também brilhar em outros espaços. Era esse, em geral, o naipe – de imensos talentos, mas ainda uma incógnita em relação ao potencial de sucesso numa nova região, quase virgem de atrações – que teria, uns, a missão de, primeiro, consolidar o funcionamento da casa, e outros, em seguida, de fazê-la decolar e cair no gosto do público.

A sexta-feira de inauguração do Carioca da Gema foi uma boca-livre quase épica. O produtor Lefê convidou todo mundo que já estava escalado para a programação inicial da casa (a princípio ocupando as noites de quarta-feira a sábado). O orquidário de amigos, conhecidos e profissionais de Thiago, Carol e Marianna igualmente foi mobilizado pelo trio. Só que o “todo mundo” convidado era apenas um traço do público que acorreu para conferir a novidade no panorama da Lapa. Deu-se, nessa noite, o efeito “Boca miúda”:

Te chamei pra uma boca miúda.

Não é nada daquilo

não é de fartura.

Mas você me trouxe

quase toda a turma.

Agora segura é tudo contigo...

Como no samba de Sereno e André Renato, obra-prima da gaiatice própria do subúrbio carioca cantada pelo Fundo de Quintal, os muitos amigos e conhecidos se multiplicaram por muitos outros amigos e por amizades de infância recém-formadas no calor de um portão superlotado. O caldeirão só não transbordou porque os donos da festa montaram um eficiente esquema de controle da lotação. Mas o entra-e-sai foi contínuo.

– O mundo do samba estava lá. Cada um tocou um pouquinho, numa grande bagunça. Eu me lembro que a certa altura a cerveja acabou. Começamos a servir só cachaça, o que, de resto, foi muito bem recebido – recorda-se Thiago.

O show de inauguração fez subir ao palco do Carioca da Gema a cantora Teresa Cristina e o Grupo Semente. Tem-se como unânime que o ponto alto daquela mágica noite foi a interpretação de Teresa Cristina para a “Oração da Mãe Menininha”. Ao transformar em épico o que já era mágico – os versos de Caymmi – o canto de Teresa Cristina uniu as tribos presentes em respeitosa, vibrante e devotada unanimidade. Estava delineada a identidade musical da casa. Parafraseando Vinicius, o samba era o que havia. Thiago:

– A gente não conhecia direito a Teresa Cristina. Ela cantava de olhos fechados, descalça, sem encarar a plateia. Sua interpretação da “Oração” tornou-se uma cena que está viva na memória, foi uma coisa emocionante. Ela começou a cantar em forma de oração, e todo mundo batia palmas, acompanhando o ritmo.

“Ai minha mãe.

Minha Mãe Menininha.

Ai minha Mãe

Menininha do Gantois”

Um axé impressionante, uma blindagem espiritual. Uma bênção para um empreendimento cultural que, a par de se engajar na revitalização da Lapa, ajudou a consolidar novos rumos musicais para o Rio e o Brasil a partir desse naco boêmio, carioquíssimo – e uma síntese – da cidade de São Sebastião.

84 visualizações
(21)98556-0834
av.mem de sÁ, 79

Razão Social: thianas eventos Ltda.

CNPJ: 14.022.532/0001-34

© 2019 by Carioca da Gema